sábado, 3 de dezembro de 2011

Um vislumbre de por que eu e todas as coisas exististimos

Disciplina após disciplina, as peças eram colocadas no lugar. Que presente aqueles três anos de seminário foram! Na última aula com o Dr. Fuller, chamada "A Unidade da Bíblia"* (que também é um livro com o mesmo título), a bandeira unificadora foi içada sobre a Bíblia inteira.
Deus ordenou uma história redentora cuja sequência de fatos demonstra a Sua glória por completo, para que, no final, o maior número possível de pessoas tivessem os antecedentes históricos necessários para engendrar o mais fervente amor por Deus. ... Aquilo que Deus está fazendo durante todo o curso da história redentora é anunciar a Sua misericórdia de tal modo que o maior número de pessoas irá, através da eternidade, deleitar-se nele de todo o seu coração, força e mente. ... Quando a terra da nova criação for preenchida com tais pessoas, então o propósito de Deus em anunciar a Sua misericórdia terá sido atingido. ... Todos os eventos da história redentora e seu significado, tais como registrados na Bíblia, compõem uma unidade em que eles se juntam para trazer à tona esse objetivo.
Contidas nessas afirmações estavam as sementes do meu futuro. A paixão motriz da minha vida estava enraizada aqui. Uma das sementes estava na palavra "glória" - o objetivo de Deus na história era de "demonstrar a Sua glória por completo". Outra semente estava na palavra "deleite" - o objetivo de Deus era que o Seu povo "deleitasse nele de todo o seu coração". A paixão da minha vida tem sido entender, e viver, e ensinar, e pregar como esses dois objetivos de Deus se relacionam um com o outro - de fato, como eles não são dois, mas um só.

Estava ficando cada vez mais claro que se eu quisesse chegar ao fim da minha vida e não dizer "Eu a desperdicei!", eu precisaria me voltar para o propósito último de Deus e me juntar a Ele. Se a minha vida tivesse que ter uma paixão única, totalmente satisfatória e unificadora, ela teria que ser a paixão de Deus. E, se Daniel Fuller estava certo, a paixão de Deus era a demonstração da Sua glória e o deleite do meu coração.

Toda a minha vida, a partir dessa descoberta, tem sido experimentar, e examinar, e explicar essa verdade. Ela tem se tornado mais clara, e mais certa, e mais exigente com os anos. Está cada vez mais claro que Deus sendo glorificado e Deus sendo desfrutado não são categorias separadas. Elas se relacionam, uma com a outra, não como frutas e animais, mas como frutas e maçãs. Maçãs são um tipo de fruta. Desfrutar Deus de forma suprema é um modo de glorificá-Lo. Desfrutar Deus faz com que o Seu valor se mostre de forma suprema.

* The Unity of the Bible

Aprendendo a "rigorosa disciplina" de ler a Bíblia

Minha dívida nesse ponto com Daniel Fuller é incalculável. Ele ensinava hermenêutica - a ciência de como interpretar a Bíblia. Ele não apenas me apresentou a E. D. Hirsch e me forçou a lê-lo com rigor, mas também me ensinou como ler a Bíblia com o que Matthew Arnold chamava "rigorosa disciplina". Ele me mostrou o óbvio: que os versículos da Bíblia não são pérolas soltas, mas elos de uma corrente. Os escritores desenvolveram padrões unificados de pensamento. Eles raciocinaram. "Venham, vamos refletir juntos, diz o Senhor" (Isaías 1:18). Isso significava que, em cada parágrafo da Escritura, a pessoa deveria perguntar como cada parte se relacionava com as outras partes de forma a dizer algo coerente. Então os parágrafos deveriam estar relacionados uns aos outros da mesma maneira. E assim os capítulos, os livros e assim por diante, até que a unidade da Bíblia ser achada em seus próprios termos.

Eu senti como se o pequeno caminho marrom da minha vida tivesse adentrado um pomar, uma vinha, um jardim com frutos a serem apanhados por toda parte. Frutos impressionantes, emocionantes e capazes de mudar uma vida inteira. Eu nunca havia visto tanta verdade e tanta beleza condensada em uma esfera tão pequena. Naquela época, a Bíblia parecia para mim, e ainda parece hoje, inexaurível. Era com isso que eu havia sonhado no centro de saúde, com mononucleose, quando Deus chamou-me para o ministério da Palavra. Agora a questão era: qual é o Ponto, o Propósito, o Foco, a Essência desse lindo vislumbre de Verdade divina?

A morte de Deus e a morte do significado


As coisas estavam fazendo sentido. Em uma fria tarde de outubro, lá em 1965, no Wheaton College, num canto do segundo andar da biblioteca, eu peguei a última edição da revista Time e li a reportagem de capa: "Deus está morto?"* (22 de outubro de 1965). "Ateístas cristãos" como Thomas J. J. Altizer respondiam, sim. Não era novidade. Friedrich Nietzsche havia dado o atestado de morte cem anos antes: "Onde está Deus? ... Eu vou te dizer. Nós o matamos - você e eu. Todos nós somos os seus assassinos. ... Deus está morto. Deus permanece morto e nós o matamos." Foi uma confissão que lhe custou caro: Nietzsche passou os seus últimos onze anos de vida sob estado semi-catatônico e morreu em 1900.

Mas os corajosos "ateístas cristãos" dos anos 60 não calculavam os custos de serem os substitutos de Deus como super-homens (como Nietzsche os chamava). A bebida forte do Existencialismo soltava a língua daqueles teólogos criativos, como os homens cinco fileiras atrás no avião, depois de terem bebido cervejas demais. Assim, a asserção suicida de que Deus está morto fora proferida novamente. E quando Deus morreu, o significado dos textos morreram com ele. Se a base da realidade objetiva morre, então toda escrita e fala a respeito da realidade objetiva também morre. Elas andam juntas.

Assim, minha libertação, no final dos anos 60, da loucura que era matar Deus, levou-me naturalmente, no início dos anos 70, à minha libertação do vazio hipócrita do subjetivismo hermenêutico - a noção dúbia de que não existe significado objetivo em afirmação alguma (exceto nesta última). Agora eu estava pronto para o verdadeiro trabalho do seminário: encontrar o que a Bíblia dizia sobre como não desperdiçar a minha vida.

* "Is God Dead?"